Pedro J. Pérez
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Livros de autoajuda

A autoajuda que nasce de uma ferida: Bertello, o bem-estar emocional e os hábitos de 2026

Gianluca Bertello apresenta «Reprogramado por el dolor», um livro de autoajuda nascido de sua experiência com o bullying. Lemos junto às seleções de HOLA e El Confidencial para entender o que buscam os leitores do gênero em 2026.

Por Pedro J. Pérez ·

Uma ferida convertida em leitura

A notícia chega do ReconquistaHOY: Gianluca Bertello apresenta «Reprogramado por el dolor», um livro de autoajuda que nasceu de sua própria experiência com o bullying. Não é um dado menor. Quando um autor transforma um episódio de sofrimento em um texto destinado a outros, o gênero recupera seu sentido mais antigo: o da voz que acompanha. O volume anuncia-se ao mesmo tempo como relato e como ferramenta, e nessa dupla condição reside boa parte de seu interesse literário e humano.

Convém deter-se no gesto. A autoajuda não começa em uma fórmula, mas em uma ferida que busca palavras. Bertello não oferece um tratado abstrato: oferece sua biografia como ponto de partida de uma conversa. O leitor desses livros raramente busca verdades absolutas; busca companhia argumentada, alguém que tenha atravessado algo parecido e depois ordenado a experiência. Essa é a promessa do volume e também seu limite: a de um testemunho pessoal que se propõe como proposta para outros.

O mapa editorial de 2026

O livro de Bertello não aparece no vazio. Em março de 2026, HOLA publicava uma seleção dos melhores livros de autoajuda do ano para trabalhar o bem-estar emocional; em outubro, El Confidencial propunha outro conjunto de títulos para começar a mudar hábitos com a chegada do outono. Três datas, três veículos e um diagnóstico compartilhado: o gênero segue vivo, renova-se e responde a demandas concretas dos leitores.

Esse mapa desenha duas preocupações dominantes do momento: o bem-estar emocional e a transformação de hábitos. A primeira atenta para como nos sentimos; a segunda, para como agimos. Entre ambas se move a autoajuda contemporânea, que já não se limita ao conselho motivacional e se interessa pela saúde psíquica cotidiana e pelos pequenos gestos repetidos. As seleções de imprensa funcionam como termômetro dessas inquietações, não como cânone definitivo nem como lista fechada.

Do testemunho ao método

Os livros de autoajuda que perduram costumam combinar dois registros: o relato e o método. O primeiro dá carne à proposta; o segundo permite que o leitor faça algo com ela. «Reprogramado por el dolor» anuncia-se a partir dessa lógica: uma experiência com o bullying —situação de violência entre iguais— que se converte em material para outros. O próprio título sugere a ideia de reprogramação: revisar o que se aprendeu no dano e ensaiar outra resposta possível.

Essa passagem do eu ao tu não é automática nem simples. Exige distância literária: quem narra deve ordenar a dor sem exibi-la e propor sem impor. A qualidade de um livro dessas características mede-se, precisamente, nesse equilíbrio. Se o testemunho se torna receita, perde verdade; se a reflexão se encerra na introspecção, perde utilidade. O interesse dessas obras reside na tensão entre as duas margens, e aí se joga boa parte de seu valor.

Ler para se compreender

Que um livro sobre bullying se apresente como autoajuda tem uma relevância evidente: nomeia uma experiência muitas vezes silenciada na escola e na família. Quem viveu algo semelhante encontra no texto um espelho e, com sorte, um mapa. E quem não o viveu pode compreender melhor um fenômeno que atravessa salas de aula, redes e conversas cotidianas. A literatura de autoajuda, quando acerta, cumpre essa função de tradução entre experiências distintas.

O outono acrescenta um matiz simbólico. A proposta de El Confidencial para mudar hábitos nessa estação conecta-se com uma intuição difundida: as mudanças são ensaiadas nos limiares, quando a rotina se reordena. Não é preciso acreditar na magia das datas para reconhecer que certos momentos convidam a revisar costumes. Os livros aproveitam esse impulso e oferecem estrutura onde costuma haver apenas boa intenção, o que não é pouco.

Critérios para escolher bem

Diante de uma estante cheia de títulos, convém ler com critério. Um bom ponto de partida é distinguir que tipo de livro temos em mãos: se predomina o testemunho, a utilidade estará na identificação e na linguagem; se predomina o método, na clareza dos passos e em sua plausibilidade. Perguntar quem fala, a partir de que experiência e com que limites são perguntas simples que evitam expectativas desmedidas.

Também ajuda dosar a leitura e contrastá-la. Os livros de autoajuda rendem melhor como conversa do que como dogma: sublinhar, anotar objeções, comentar com outros leitores. E convém recordar que nenhum volume substitui a ajuda profissional quando o mal-estar é intenso. As seleções de HOLA e El Confidencial podem orientar a busca, mas a escolha final depende do problema concreto de cada leitor e de sua maneira de ler.

Conclusão: a companhia bem escrita

Em conjunto, as três notícias descrevem um gênero que continua fazendo perguntas pertinentes. Bertello traz o testemunho e a origem ferida; HOLA, o interesse pelo bem-estar emocional; El Confidencial, a vontade de mudar hábitos. Lidos juntos, esses fios mostram que a autoajuda não é um bloco homogêneo, mas uma família de livros diversos em ambição e em qualidade. Julgá-los em bloco seria tão injusto quanto celebrá-los sem discernimento algum.

Fica o essencial: um livro pode acompanhar, ordenar e sugerir, mas o trabalho corresponde ao leitor. «Reprogramado por el dolor» propõe revisar o que se aprendeu no dano; as seleções de imprensa oferecem portas de entrada para o bem-estar emocional e para os hábitos. Em todos os casos, a leitura funciona como esse interlocutor paciente que não promete milagres e, ainda assim, muda algo em quem lê com atenção sustentada.

Fontes e referências

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