Pedro J. Pérez
ESEN

Conspiração

Quando o excepcional se torna norma: ler o fascismo no século XXI

Uma resenha do livro End Times Fascism, de Naomi Klein e Astra Taylor, que examina como a política destrutiva se normaliza e propõe um kit de ferramentas progressista.

Por Pedro J. Pérez ·

Introdução: uma resenha que é também um alerta

The Guardian Books publica, em 14 de setembro de 2026, uma resenha de End Times Fascism, o livro assinado por Naomi Klein e Astra Taylor. O texto resenhado não se limita a comentar o volume: apresenta-o como uma análise aguda do dano causado pelos super-ricos imprudentes e como um kit de ferramentas progressista para repará-lo. Essa dupla condição, diagnóstico e utilidade prática, ordena toda a peça e explica por que o jornal britânico lhe concede espaço em sua seção de livros.

A resenha sustenta que, quanto mais poder acumulam os nacionalistas radicais de direita de nossa época, maior é o risco de que sua marca destrutiva de política se normalize. Não se trata de uma previsão abstrata, mas de um alerta sobre hábitos de percepção: o que se repete deixa de surpreender. O livro, segundo essa leitura, tenta devolver o estranhamento diante de fatos que deveriam continuar parecendo-nos intoleráveis, e oferece um marco para agir em vez de apenas denunciar.

Contexto: os exemplos que a resenha põe sobre a mesa

Para concretizar esse risco de normalização, a resenha enumera situações que, segundo seu critério, não deveríamos aceitar como normais. Menciona que o responsável por um dos maiores arsenais nucleares do mundo promete levianamente que «toda uma civilização morrerá esta noite». Assinala também que ao primeiro bilionário da história se permite difundir teorias conspiratórias racistas até um ponto antes inimaginável. São exemplos que a peça usa como sintomas, não como anedotas isoladas.

O texto acrescenta que deveria alarmar-nos que no Reino Unido um partido —a frase fica truncada no resumo disponível— ocupe um lugar preocupante no panorama político. A resenha não desenvolve aí todos os detalhes, mas a menção basta para situar o fenômeno em uma escala internacional. Os três exemplos compartilham um traço: quem concentra poder econômico, militar ou midiático atua sem que a gravidade de suas palavras e atos se traduza em rejeição coletiva.

Explicação: o que o livro propõe segundo a resenha

A resenha descreve End Times Fascism como uma análise aguda do dano causado pelos super-ricos imprudentes e, ao mesmo tempo, como um kit de ferramentas progressista para repará-lo. Essa fórmula sugere uma estrutura em dois tempos: primeiro, mostrar como a concentração extrema de riqueza e poder se conecta com formas destrutivas de política; depois, oferecer instrumentos concretos para reconstruir o danificado. A ênfase nas ferramentas diferencia o volume de um simples ensaio de denúncia.

O resumo disponível não detalha quais são as ferramentas nem como se aplicam, de modo que qualquer enumeração seria especulação. O que se pode afirmar é que a resenha as qualifica de progressistas e orientadas à reparação. A resenha, além disso, enquadra o livro em uma ideia de contra-ataque: a manchete fala que a contraofensiva começa aqui. É uma hipótese editorial sobre o valor do texto, não um dado verificável sobre seus efeitos reais.

Relevância: por que importa falar de normalização

A palavra-chave da resenha é normalização. O argumento é que o perigo não reside apenas nos atos extremos, mas no costume de conviver com eles. Quando uma ameaça nuclear se formula como frase casual, ou quando uma teoria conspiratória racista circula sem freio a partir de uma posição de enorme riqueza, o limiar do aceitável se desloca. A resenha pede explicitamente não considerar normais essas cenas, e aí está sua tese central.

Esse alerta conecta-se com um debate mais amplo sobre mídia, responsabilidade e memória pública. A resenha não oferece estudos nem dados no fragmento disponível; sua força é retórica e moral. Por isso convém lê-la como uma tomada de posição: sustenta que a repetição do intolerável erode a capacidade de reação. É uma opinião argumentada, não uma lei sociológica demonstrada, e o próprio gênero da resenha convida a discuti-la.

Informação útil: o que o leitor pode fazer com esta resenha

Para um leitor interessado, a resenha funciona como porta de entrada para um livro que combina diagnóstico e proposta. Se o volume cumpre o que a peça anuncia, encontrará nele um mapa do dano atribuído aos super-ricos e um conjunto de ferramentas para repará-lo. A resenha não promete neutralidade: posiciona-se e recomenda. Quem busque uma análise fria deverá contrastá-la com outras leituras, porque aqui há uma clara intenção de mobilizar.

Também é útil como recordatório metodológico: diante de afirmações graves, convém distinguir entre o fato citado, a interpretação que se faz dele e a proposta política que se deriva. A resenha mistura os três níveis, como é habitual no gênero. O leitor pode aproveitar essa mistura para perguntar-se que evidência sustenta cada exemplo e que limites tem o marco proposto por Klein e Taylor.

Conclusão: uma resenha que pede não se acostumar

End Times Fascism, segundo The Guardian Books, chega como análise e como ferramenta. A resenha o apresenta em um momento em que, a seu juízo, o poder dos nacionalistas radicais de direita cresce e sua política destrutiva corre o risco de se tornar paisagem. Diante disso, o texto não propõe contemplação, mas contra-ataque. É uma leitura comprometida, escrita para incomodar e para oferecer saídas, não para certificar que tudo está perdido.

Resta uma cautela necessária: o fragmento disponível não permite verificar os detalhes do livro nem a solidez de cada exemplo. O que pode ser retido é a pergunta que a resenha deixa aberta: o que estamos dispostos a aceitar como normal? A resposta, sugere, não deveria ser dada por certa. Ler o livro ou a resenha completa é o próximo passo lógico para quem quiser formar um juízo próprio.

Fontes e referências