Livros de autoajuda
Autoajuda na encruzilhada: Cury, Sharma e a pergunta pelo valor dos livros que prometem nos transformar
Duas notícias recentes devolvem os livros de autoajuda ao centro da conversa: a irrupção política de Augusto Cury no Brasil e o alerta de Robin Sharma contra a cultura do trabalho extremo. Entre ambas emerge uma pergunta de fundo sobre o que podem e o que não podem realmente fazer esses livros.
Por Pedro J. Pérez ·
Introdução: dois autores, uma mesma pergunta
Em setembro de 2026, dois nomes habituais nas estantes de desenvolvimento pessoal voltaram a ocupar manchetes por motivos que excedem o literário. Augusto Cury, autor brasileiro de livros de autoajuda, emergiu segundo El Observador como uma espécie de terceira via nas eleições do Brasil. O fenômeno convida a pensar o que ocorre quando um escritor desse gênero deixa de ser lido como conselheiro íntimo e passa a ser percebido como voz pública.
Quase ao mesmo tempo, Robin Sharma declarou ao Yahoo que durante vinte e cinco anos, em seus livros, tem repetido uma ideia incômoda: não se mate trabalhando. A coincidência não é casual. Ambos os episódios colocam o gênero diante de uma pergunta que raramente se formula com seriedade: que tipo de autoridade concede um livro de autoajuda e até onde alcança sua influência legítima?
Contexto: o gênero que não para de crescer
A autoajuda é um dos territórios editoriais mais persistentes das últimas décadas. Seus livros prometem transformações concretas: gerir emoções, organizar a vida, melhorar hábitos, encontrar propósito. Essa promessa explica seu sucesso e também a desconfiança que desperta em âmbitos acadêmicos e literários, onde frequentemente se acusa o gênero de simplificar problemas complexos e de transferir ao leitor uma responsabilidade excessiva sobre seu próprio bem-estar.
Nesse marco, as figuras de Cury e Sharma resultam especialmente eloquentes. Ambos construíram obras extensas e lidas massivamente, e ambos veem agora como suas ideias circulam fora do circuito estritamente livreiro. O caso brasileiro e a entrevista do autor canadense mostram que esses textos não apenas se leem: também se citam, se discutem e, em ocasiões, se convertem em material político ou cultural.
Explicação: o que realmente dizem essas notícias
Segundo a informação disponível, Cury emergiu como terceira via nas eleições brasileiras, um dado que surpreende porque desloca um autor de autoajuda para o terreno da representação pública. Não se trata de um detalhe anedótico: sugere que certos discursos de superação pessoal podem conectar com um eleitorado que busca alternativas fora dos partidos tradicionais, embora as fontes não permitam afirmar quais são suas propostas nem o alcance real desse apoio.
Por sua vez, Sharma sustenta que durante vinte e cinco anos tem repetido em seus livros um alerta contra o excesso de trabalho. A frase, recolhida pelo Yahoo, funciona como uma autocrítica do próprio gênero: o desenvolvimento pessoal não deveria ser confundido com produtividade ilimitada. É uma distinção relevante, porque boa parte da literatura de autoajuda tem sido associada precisamente à otimização do rendimento e não ao seu limite.
Relevância: por que importa aos leitores
Para quem lê autoajuda, essas notícias têm uma consequência prática: obrigam a distinguir entre o livro e seu autor, e entre o conselho e seu uso público. Um texto pode ajudar alguém a organizar sua rotina e, ao mesmo tempo, ser invocado em um contexto político ou midiático que nada tem a ver com essa experiência íntima. Reconhecer essa diferença protege o leitor de expectativas desmedidas e de adesões automáticas.
Também importa porque o gênero costuma ser julgado em bloco. Os casos de Cury e Sharma mostram que dentro da autoajuda convivem propostas muito distintas: algumas reforçam a exigência de rendimento e outras, como a de Sharma, a questionam. Tratar o gênero como uma única coisa impede ver esses matizes e empobrece o debate sobre quais livros merecem ser lidos e por quê.
Informação útil: como ler autoajuda com critério
Uma primeira recomendação é verificar o que respalda cada afirmação. Muitos livros de autoajuda combinam observações razoáveis com generalizações sem evidência citada. Distinguir entre uma sugestão prática, uma hipótese psicológica e uma opinião pessoal do autor ajuda a não confundir inspiração com conhecimento comprovado. As fontes disponíveis sobre Cury e Sharma não permitem avaliar seus métodos, apenas constatar sua presença pública.
Uma segunda recomendação é ler com atenção ao contexto do autor. Saber que Sharma leva vinte e cinco anos insistindo em não se matar trabalhando muda o modo de receber seus livros: não são um manual de produtividade, mas um alerta sobre seus excessos. Do mesmo modo, conhecer a irrupção política de Cury no Brasil convida a perguntar-se quais ideias de suas obras ressoam socialmente e quais pertencem apenas ao âmbito privado.
Conclusão: o livro como espelho e como sintoma
O que ocorreu com Cury e Sharma em setembro de 2026 não demonstra que a autoajuda seja boa ou má. Demonstra algo mais interessante: que esses livros funcionam como espelhos das ansiedades de seu tempo. Quando um autor de desenvolvimento pessoal se torna terceira via eleitoral ou quando outro alerta contra o trabalho extremo, o gênero revela o que as pessoas buscam e o que temem. Lê-los com critério é, talvez, a única forma de que cumpram sua promessa sem traí-la.
A conclusão é modesta mas firme: nenhum livro de autoajuda substitui o juízo próprio. Pode oferecer linguagem para nomear o que sentimos, hábitos para experimentar e perguntas para nos fazermos. Mas a transformação que promete ocorre, se ocorre, na vida do leitor, não na página. Manter essa distância crítica é o que permite desfrutar do gênero sem lhe entregar mais autoridade do que merece.
Fontes e referências
- Quién es Augusto Cury, el autor de libros de autoayuda que emergió como tercera vía en las elecciones en Brasil - El Observador — El Observador
- Si lees libros de autoayuda aprenderás cosas teóricas: si ves una buena película las enseñanzas se quedarán contigo para siempre - SensaCine.com.mx — SensaCine.com.mx
- Robin Sharma, experto en desarrollo personal: “Durante 25 años, en mis libros, he dicho: no te mates trabajando” - Yahoo — Yahoo