Prática Diária ·
A prática do comando devolvido: recupere hoje a autoria do seu dia
Um exercício breve para detectar os três sinais que te colocam no banco do passageiro —queixa, culpa e justificativa— e te devolver, com um gesto concreto, ao lugar de quem decide.
Por Pedro J. Pérez
Há um momento do dia em que algo não sai como você esperava. Pode ser um e-mail que não chega, um plano que desmorona, uma frase que alguém solta sem pensar. E ali, quase sem você perceber, aparece uma das três: a queixa que busca companhia na impotência, a culpa que te acusa, a justificativa que te explica por que você não podia fazer outra coisa. As três são confortáveis. As três têm o mesmo preço: você deixa o volante em outras mãos.
Não se trata de negar a dificuldade nem de fingir que tudo depende de você. Trata-se de algo mais fino: negar-se a converter o que te acontece naquilo que você é. Este exercício não elimina o problema; devolve você à posição de quem responde a ele. Quinze minutos, sem material, em casa ou em qualquer brecha da jornada.
A prática Duração: 15 minutos
Cace a frase exata
Durante cinco minutos, sente-se com papel ou com o celular e escreva as três ou quatro frases que você mais repetiu hoje, em voz alta ou na sua cabeça. Sem corrigi-las ainda, tal como saíram. Busque as que começam por «é que…», «eu não tenho culpa de…», «se ele/ela não tivesse…». A queixa, a culpa e a justificativa têm formas reconhecíveis. Você está apenas recolhendo amostras.
Coloque uma etiqueta em cada uma
Leia o que você escreveu e marque ao lado de cada frase qual sinal é: Q de queixa, C de culpa, J de justificativa. Leve dois minutos. Não analise ainda se é verdade ou mentira o que você diz; apenas classifique. Você verá que muitas vezes as três se misturam em uma única frase: «É que ninguém me avisou e por isso não pude, embora também não tenha perguntado». Ali estão as três.
Pergunte quem tem o comando
Escolha a frase que mais peso tenha para você hoje. Pergunte a si mesmo em voz baixa, com calma: se eu repetir esta frase amanhã, quem decide o que eu faço com isso? A pessoa ou a circunstância que eu menciono, ou eu? Não busque uma resposta edificante; busque a resposta honesta. Se a frase te deixa esperando que outro mude, você já sabe onde está o volante.
Reescreva em primeira pessoa ativa
Pegue essa frase e vire-a do avesso sem mentir. Não se trata de dizer «está tudo bem», mas de dizer qual parte te cabe. Por exemplo: de «é que não me avisaram» para «não perguntei e posso perguntar na próxima vez». De «sempre me acontece o mesmo» para «isso se repete e hoje escolho responder diferente». Escreva a nova frase. Leia-a duas vezes. Verifique se não é uma promessa grandiosa, apenas um movimento pequeno que está nas suas mãos.
Escolha um gesto e marque uma hora
Da frase reescrita sai uma ação mínima. Não uma revolução: um gesto. Enviar aquela mensagem, pedir aquele esclarecimento, parar de repetir aquela queixa na próxima conversa, dizer «não sei» em vez de inventar uma desculpa. Marque uma hora concreta para hoje ou para amanhã logo cedo. Anote. Esse gesto é o ato com o qual você recupera a posição de criador: não muda o mundo, muda quem o habita.
Para refletir hoje
No final do dia, em que momento de hoje você entregou o comando sem perceber, e qual frase exata fez isso?
Para terminar
Queixar-se alivia por um momento e depois deixa o terreno estéril; culpar-se e justificar-se fazem o mesmo com disfarces diferentes. Recuperar o comando não é um discurso que se pronuncia uma vez, mas um gesto que se repete cada vez que você se surpreende em um dos três sinais. Hoje você já sabe quais são os seus.