Prática Diária ·
A prática de observar sem rotular: abra hoje o espaço entre seus pensamentos
Durante alguns minutos, deixe de classificar o que acontece como bom ou ruim. Sem a voz que sentencia, o dia se torna mais amplo e você, mais leve.
Por Pedro J. Pérez
Há um costume tão antigo que mal o notamos: assim que algo acontece, uma voz interior se apressa a sentenciar se está bem ou mal. Um e-mail, um comentário, uma mudança de planos, o tom de alguém que amamos. Tudo recebe sua etiqueta quase sem percebermos. E entre uma etiqueta e a seguinte, a mente não deixa nem uma fresta.
Hoje você vai experimentar algo diferente: retirar essa voz por um tempo. Não se trata de se tornar indiferente nem de fingir que nada importa, mas de verificar o que acontece quando você deixa de classificar. O que aparece nesse vazio não é vazio: é espaço, e nesse espaço costuma se infiltrar uma clareza que o julgamento constante mantinha encoberta.
A prática Duração: 15 minutos
Escolha sua janela e avise por dentro
Decida quanto tempo vai praticar hoje: quinze minutos seguidos bastam para começar. Pode ser no café da manhã, em uma caminhada curta, no trajeto para o trabalho ou em uma pausa em casa. Antes de começar, diga para si mesmo com clareza: «Durante estes minutos não vou decidir se o que acontece é bom ou ruim». Não é preciso que mais ninguém saiba; é um acordo consigo.
Observe o que chega, sem assinar o veredicto
Durante esse tempo, deixe que as coisas aconteçam com normalidade: o celular toca, alguém fala, surge um imprevisto, aparece um pensamento sobre algo pendente. Sua única tarefa é notar o que chega e não fechá-lo com uma sentença. Se você se surpreender pensando «isto é um desastre» ou «isto é perfeito», não se castigue: simplesmente reconheça a etiqueta e solte-a, como quem afasta uma folha para continuar vendo a paisagem.
Volte ao fato nu
Cada vez que aparecer um julgamento, aterrisse no que realmente está acontecendo, sem adjetivos. Não «me irritou», mas «me escreveu uma mensagem». Não «que tudo vai mal», mas «tenho três tarefas por fazer». Descreva mentalmente o fato em uma frase simples e fique aí alguns segundos. Isto não nega o que você sente; apenas evita que o sentimento se transforme em um dictamen sobre a realidade.
Se você se perder, respire e reinicie
É normal que a mente volte a julgar em poucos segundos; ela faz isso por costume, não por rebeldia. Quando notar, faça uma respiração lenta e comece de novo, sem dramatizar o deslize. Você pode repetir este reinício quantas vezes forem necessárias durante sua janela de prática. Cada retorno conta mais que a perfeição.
Feche com um olhar amplo
Quando o tempo terminar, fique um momento em silêncio e pergunte-se como você vê agora o que tem diante de si. Note se as pessoas lhe parecem um pouco mais compreensíveis e se você se sente mais leve. Não busque uma conclusão grandiosa: basta registrar a diferença, mesmo que seja pequena. Depois, siga com seu dia levando esta mesma disposição às primeiras interações que tiver.
Para refletir hoje
Em que momento do dia de hoje pude notar que estava julgando e, ao soltar a etiqueta, algo se abriu um pouco mais?
Para terminar
Julgar é uma atividade exaustiva porque exige manter o mundo classificado o tempo todo. Observar, por outro lado, descansa: você não precisa decidir nada, apenas olhar o que há. Praticar este vazio durante alguns minutos não muda suas circunstâncias, mas muda o lugar de onde você as vive, e esse lugar é o que costuma deixar entrar o que antes não cabia.