Mindfulness
Mindfulness: a arte de voltar a estar presente
Vivemos com a mente em outro lugar: repassando o que já passou ou antecipando o que poderia acontecer. O mindfulness nos convida a regressar ao único momento em que a vida acontece de verdade: este. Não se trata de esvaziar a mente nem de te transformares em outra pessoa, mas de reconhecer uma capacidade que já possuis e aprender a habitá-la com amabilidade e constância.
Por Pedro J. Pérez ·
O que é realmente o mindfulness
O mindfulness é a capacidade humana de estar plenamente presente, consciente de onde estamos e do que fazemos, sem reagir de forma desmedida nem deixar-nos arrastar pelo turbilhão dos pensamentos. Não é uma técnica exótica reservada a monges nem um estado mental que se tenha de fabricar do zero. É algo que já faz parte da nossa natureza: todos vivemos momentos de atenção plena, ainda que não os tenhamos rotulado como tal. Acontece quando escutamos alguém com todo o corpo, quando caminhamos sem pressa sentindo o chão sob os pés ou quando uma tarefa nos absorve por completo e o tempo parece deter-se.
A diferença entre esses lampejos espontâneos e uma prática sustentada está na intenção. O mindfulness não consiste em forçar a mente a calar-se, mas em treinar o olhar para observar o que acontece, dentro e fora, com curiosidade e sem julgamento. Quando a mente se distrai, e fá-lo-á uma e outra vez, não falhámos: acabámos de nos dar conta de que estávamos longe. Esse instante de reconhecimento é, em si mesmo, o coração da prática. Não se trata de não nos perdermos, mas de voltar.
A mente que se vai e o corpo que sustenta
A nossa mente tem uma tendência natural para fugir. Enquanto o corpo está sentado à mesa, a cabeça repassa uma conversa de ontem ou ensaia preocupações sobre amanhã. Essa dissociação entre o que fazemos e o que pensamos é uma fonte silenciosa de tensão: o corpo responde a ameaças que não estão a acontecer e a atenção fragmenta-se. O mindfulness não combate essa tendência com dureza; reconhece-a com ternura e oferece uma âncora para regressar. Essa âncora costuma ser o corpo, porque é a única coisa que está sempre aqui e agora.
Por isso a prática começa e termina no corpo. Antes de tentar acalmar a mente, tomamos consciência da postura, do contacto dos pés com o chão, do peso do corpo sobre a cadeira ou o coxim. O corpo tem os seus próprios ritmos e, quando lhe damos permissão, tende a relaxar-se. Não se trata de um relaxamento forçado, mas de deixar de acrescentar tensão desnecessária. Esse gesto simples de habitar o corpo devolve à mente um ponto de referência amável ao qual pode regressar sempre que se perde.
Para além do coxim: a atenção na vida cotidiana
Embora a meditação sentada seja uma forma clássica de cultivar a atenção, o mindfulness não se limita aos momentos formais de prática. Podemos integrá-lo em qualquer atividade: caminhar, comer, ouvir música, praticar desporto ou até lavar a louça. A chave está em fazer uma pausa breve e levar a atenção ao que está a acontecer nesse preciso instante. Não é preciso acrescentar uma hora extra ao dia; basta introduzir pequenos espaços de presença no meio da rotina. Um minuto de atenção consciente antes de responder a uma mensagem, uma respiração profunda antes de abrir uma reunião, sentir as mãos sob a água enquanto nos lavamos.
Estes micro-momentos têm um efeito acumulativo. Não se trata de alcançar um estado permanente de serenidade, mas de treinar a musculatura da atenção para que esteja disponível quando mais precisamos dela. A prática informal lembra-nos que a vida não é uma série de tarefas a completar, mas uma sucessão de instantes que merecem ser habitados. Quando levamos a consciência ao cotidiano, o ordinário torna-se extraordinário: o sabor do café, o som da chuva, a textura da roupa. Tudo isso nos devolve à vida tal como é, sem filtros nem antecipações.
Os frutos de uma mente treinada
Quando praticamos mindfulness com regularidade, começamos a notar mudanças subtis mas profundas. A atenção torna-se mais estável, o que melhora a nossa capacidade de concentração e o nosso rendimento no trabalho ou nos estudos. Mas há algo mais valioso: ganhamos perspetiva sobre os nossos próprios processos mentais. Observamos como surgem os pensamentos, as emoções e as reações sem nos identificarmos por completo com eles. Essa distância amável permite-nos escolher com maior liberdade como responder, em vez de reagir automaticamente. A ansiedade perde força quando deixamos de a alimentar com a nossa resistência.
Também se transforma a nossa relação com os outros. Ao cultivar uma atitude de curiosidade e calor para connosco mesmos, essa mesma atitude estende-se aos outros. Escutamos com mais presença, julgamos menos e compreendemos melhor. Não se trata de nos tornarmos perfeitos nem de eliminar o stress da vida, mas de nos relacionarmos com ele de outra maneira. A prática ensina-nos a sustentar o difícil sem nos fecharmos, e a saborear o bom sem nos apegarmos. É um caminho de humanidade partilhada, não uma corrida para a perfeição.
Uma prática simples para começar hoje
Se queres experimentar o mindfulness, não precisas de condições especiais. Procura um lugar onde possas sentar-te com estabilidade: uma cadeira, um coxim no chão ou um banco no parque. Senta-te sem te recostares nem te inclinares para a frente. Se usas uma cadeira, apoia os pés no chão; se estás num coxim, cruza as pernas com comodidade. Endireita as costas sem rigidez, deixando que a sua curvatura natural esteja presente. Relaxa os ombros e deixa cair os braços aos lados, com as mãos sobre as coxas. Baixa ligeiramente o queixo e suaviza o olhar, sem necessidade de fechar os olhos.
Uma vez estabelecida a postura, leva a atenção à respiração. Sente como o ar entra e sai, sem o controlares nem forçares. Quando a mente se distrair, e fá-lo-á, não te repreendas: simplesmente reconhece para onde foi e volta ao seguinte ciclo respiratório. Podes fazê-lo durante cinco minutos. Ao terminar, antes de te levantares, agradece este breve espaço de presença. Esta prática mínima é suficiente para começar. A constância, não a duração, é o que transforma. Como costuma dizer-se, é simples, mas nem sempre fácil. O trabalho consiste em continuar a voltar, uma e outra vez, com paciência e amabilidade.
Leituras e referências
- What Is Mindfulness? — Mindful