Mindfulness
O corpo como verbo: habitar a sensação em vez da ideia
Carregamos uma ideia do corpo herdada da memória: a que o mede, o compara e antecipa o que vai sentir. Mas debaixo desse mapa pulsa outra coisa, uma atividade que não cessa e que só se conhece quando lhe damos tempo. Este artigo propõe passar do corpo como objeto ao corpo como verbo, e oferece uma prática concreta para nos encontrarmos com o que de verdade ocorre neste instante.
Por Pedro J. Pérez ·
O corpo que acreditamos conhecer e o corpo que acontece
Há uma distância enorme entre o corpo do qual falamos e o corpo que estamos vivendo. Quando dizemos «dói-me as costas» ou «estou cansado», quase sempre falamos de uma imagem: um mapa feito de lembranças, diagnósticos, comparações com outros corpos e prognósticos sobre o que virá. Esse mapa é útil, orienta-nos, permite-nos cuidar de nós. Mas não é o território. O território é o que está acontecendo agora mesmo, debaixo da palavra que o nomeia.
A memória ensina-nos a reconhecer com rapidez. Sabemos de antemão como será esse joelho, essa respiração, esse peso no peito. Essa eficácia tem um preço: deixamos de olhar. A atenção desliza para o que já esperamos encontrar e o resto fica na penumbra. No entanto, quando paramos o tempo suficiente, aparece algo que não estava no guião: um formigueiro que muda enquanto o observamos, uma temperatura que não tínhamos notado, uma tensão que se afrouxa sozinha ao ser vista.
Sentir é um ato, não uma fotografia
Um objeto pode ser fotografado; uma atividade, não. O corpo vivo parece-se mais com um verbo do que com um substantivo: respira, ajusta, responde, se reacomoda sem nos pedir permissão. Enquanto lemos estas linhas, algo em nós está regulando o ritmo do coração, a postura dos ombros, a temperatura das mãos. Nada disso requer a nossa direção, e no entanto tudo isso é o que somos neste momento.
Por isso a atenção ao corpo não consiste em fabricar uma sensação nova nem em alcançar um estado especial. Consiste em dar permissão ao que já está acontecendo para que se mostre. É uma forma de escuta pouco habitual: escutar sem corrigir, sem exigir que a experiência coincida com o que esperávamos. E aí aparece a surpresa, essa pequena fenda pela qual entra a realidade presente.
A mão sobre a mesa: um exercício de honestidade
Pensa na tua mão apoiada sobre uma superfície. Sabes perfeitamente como é, onde está, que forma tem. Agora fica com ela uns segundos sem fazer nada. Talvez notes pressão, talvez frio na pele, talvez um pulso ténue no pulso. Algumas sensações serão nítidas; outras, difusas, quase impossíveis de localizar com precisão. E pode ser que mudem enquanto as observas.
Esse pequeno desconcerto é valioso. Mostra-nos que o conhecimento que tínhamos da nossa mão era certo mas incompleto. Não se trata de descartar o mapa, mas de reconhecer que o mapa não esgota o território. A mesma operação pode ser feita com a respiração, com o apoio dos pés no chão, com a zona ao redor dos olhos. Cada vez que o fazemos, o corpo deixa de ser um objeto que transportamos e começa a ser uma atividade que compartilhamos com o instante.
O que a ciência sugere e o que a experiência mostra
A investigação sobre a interocepção, a capacidade de perceber o estado interno do organismo, tem proposto que a experiência corporal surge de um diálogo contínuo entre o que o cérebro antecipa e os sinais que chegam do corpo. As expectativas prévias modulam o que percebemos, e os sinais novos corrigem essas expectativas. Isso não significa que imaginemos o que sentimos: significa que perceber é um processo ativo, não uma receção passiva.
Convém sermos prudentes. A ciência descreve mecanismos e abre perguntas; não dita o que devemos sentir nem resolve o mistério da consciência. Que a atenção sustentada modifique a perceção é um facto observável na prática, mas não convém transformá-lo em promessa de resultados concretos. A prática sustenta-se pelo seu valor próprio, não pela expectativa de um efeito espetacular.
A consciência que conhece ambos os lados
Há um passo mais, e é o mais silencioso. Enquanto observas uma sensação, também observas a ideia que tens dessa sensação. Estão as duas coisas ao mesmo tempo: o calor na palma e o pensamento «isto é a minha mão». Ambas aparecem num mesmo espaço de conhecimento. Esse espaço não é um objeto a mais dentro da experiência; é a abertura na qual tudo o resto se apresenta.
A tradição não dual assinala-o com insistência: a consciência não é algo que possuímos, mas aquilo em que a experiência ocorre. Não é preciso aceitá-lo como doutrina. Basta notar, sem teoria, que tanto a sensação cambiante como a imagem estável de si mesmo são conhecidas por algo que não muda ao mesmo ritmo. Essa observação simples, repetida com calma, vai afrouxando a identificação com o corpo como objeto e com o eu como relato fechado.
Uma prática para voltar ao corpo de hoje
Senta-te numa postura confortável e escolhe uma zona pequena do corpo, por exemplo uma mão. Podes manter os olhos abertos se preferires. Dá-te um ou dois minutos sem tentar modificar nada. Deixa que as sensações se tornem evidentes ao seu próprio ritmo: talvez notes algo claro, talvez algo incerto, talvez muito pouco. Qualquer uma dessas possibilidades é um começo válido. Se aparecer uma descrição conhecida, deixa-a estar junto à sensação, sem a expulsar.
Depois pergunta-te, sem necessidade de responder com palavras, se o que sentes coincide inteiramente com o que esperavas. Estás a dar tempo para que se revele o que há. Antes de terminar, repara que as sensações, as expectativas e a atenção mesma são conhecidas na consciência. O corpo é mais do que um objeto que levas contigo: é a atividade viva pela qual este momento se revela. Volta ao dia com essa constância. E se em algum momento a atenção para dentro te resultar angustiante ou te desconectar, para, olha ao redor e regressa ao teu entorno. Não há nenhuma obrigação de atravessar mal-estar para chegar a nenhum lugar.
Advertência de saúde: este conteúdo é informativo e não substitui a atenção médica. Recorre ao teu médico para avaliar a tua situação e antes de mudar qualquer tratamento. Aviso de saúde: este conteúdo é informativo e não substitui o atendimento médico. Consulte seu médico para avaliar sua situação e antes de alterar qualquer tratamento.
Leituras e referências
- The Body as a Verb — Deepak Chopra